As quebradeiras - Conto de Murilo Vilela

AS QUEBRADEIRAS 

                                                           Joel fechou-se no mais profundo silêncio da natureza humana. A dramática realidade parece tê-lo arrancado bruscamente, da leveza boêmia pelas estradas da vida e do coração. De uma só vez, Noemia e Ritinha se transformaram em duas pequenas nuvens, sumindo tristemente no ocaso dos amores findos.


Por muitos anos, o babaçu foi o mirrado sustento de quantos fizeram sua morada sob as palhas desta abençoada palmeira.

As quebradeiras de coco, na imensa região dos babaçuais, eram e são até hoje conhecidas apenas como quebradeiras. Velhas e jovens mantêm a rude e centenária tradição de quebrar coco no gume do machado, tirando-lhe a amêndoa tão necessária como alimento e como produto de comercialização.

O extenso chão dos babaçuais engloba, principalmente, terras do Tocantins, do Pará, do Maranhão e do Piauí. Rico é o folclore do ciclo do coco e infindáveis são os enredos trançados com as palhas destes coqueiros, que testemunharam o desenrolar de tantas histórias.

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Ainda hoje, quem passar nas proximidades da grota do sucuriú, dois quilômetros a montante da foz do Bonito, verá duas mangueiras monumentais, vinte metros eqüidistantes de um fornido e limoso esteio de aroeira desbotado pelo tempo, mas forte e inatingível como há muitos anos, quando ali foi fincado como peça central de um barracão de oito forquilhas, reduto das quebradeiras da redondeza. Duas passadas largas, entre a segunda e a terceira forquilhas de cada lado, marcavam uma linha imaginária que dividia o barracão ao meio, uma vez que eram dois os seus proprietários. Em cada metade se erguia um monte de coco e ao redor deles as respectivas quebradeiras aninhavam-se no seu costumeiro pedaço de chão. No correr do dia inteiro se escutavam a pancada do cacete no lombo do coco, as gargalhadas, as cantigas, as histórias, enfim, o som da vida das quebradeiras.

As mangueiras, alinhadas no sentido nascente-poente, emprestavam sombra constante ao barracão, amenizando o árduo trabalho braçal de suas ocupantes.

Como eram dois os proprietários, dois compradores de coco, consequentemente, cada qual tinha o seu grupo de quebradeiras, que se rivalizavam na quantidade de coco quebrado mas, mantinham uma amizade fraterna e muito respeito pelas mais velhas que ali representavam as líderes de cada grupo. A do lado nascente era a Aurora, morenona forte e sisuda que apesar de andar beirando os setenta, era detentora da mais forte gargalhada, entre todas elas. Trabalhava calada mas, quando escutava um dizer verdadeiramente engraçado, sua gaitada ecoava na sombra do cocal. Era sua maneira de dizer que também participava da tagarelice de suas companheiras.

Na cabeceira do poente, a todo-poderosa era a Luizona, também conhecida como Luíza do Cirino, Luíza do Tabocal, ou Mãe Luíza pois, por um período de sua vida, fora parteira, o que justificava o cognome. Luizona era imensa, latagona de cabelo crespo avermelhado, nádegas volumosas: “ uma alemanha de muié que como feme já não valia mais nada,” no dizer de Cirino, seu marido, aos amigos mais íntimos.

Mãe Luiza era doente: sofria de pressão alta, pernas inchadas, cansaço. A quem tentava aconselhá-la costumava responder: “ num tem quem faça eu comer insosso, largar o café e o cachimbo e deixar de mastigar um naquinho de carne seca no quebra-jejum e no armoço.” Apesar da idade avançada, não deixava o velho costume de participar da quebração de coco. Falastrona, as vezes adentrava os caminhos da alcova e, confiada na discrição de suas comandadas, confidenciava-lhes intimidades que muitas outras não gostavam de comentar. Costumava dizer que seu casamento com Cirino foi tão abençoado que até “ nas função” se acabaram por igual. Depois de sua derradeira barriga, que foi a sétima e a mais atrapalhada, ela quase se liquida. Inchou muito do quarto mês em diante e foi daí que começou o desmantelo da pressão. Quebrou o resguardo devido a uma queda que o Cirino pegara em suas esperadas, desconjuntando um pé que o obrigou a passar um bocado de tempo com o mocotó entaniçado com leite de atraca. Mesmo assim, arrumou umas andanças no rumo do Descarreto, de onde só voltava tarde da noite, fedendo a cachaça e “isalando um prifume que arripunava o meu estambo. Nunca reclamei de nada porque eu sabia das precisão dele. Depois tudo se agasaiou e hoje nós véve cuma Deus qué.”

Cirino era um negrão forte, espadaúdo, desbarrigado, pinta de sangue no olho direito. Alguma brancura na carapinha não lhe conferia velhice e, aparentemente, estava longe das fraquezas referidas por Luizona. Mantinha uma aparência distante que encobria, com sol de peneira sua fama de maior arrastador de asa no rumo das sendeiras, o fraco maior de sua vida. Um dia, numa caçada, confessara ao “ cumpade Genaro” que sua mulher fazia era tempo que perdera a serventia na cama mas que não a largava por nada nesse mundo. –“ É minha companheira véia e assim vai sê até o fim de nossos dia. Tem noite que eu fico oiando aquele muzuá, ali duma banda, roncando devido as venta entupida com pó de coco e o peito chacoaiando no sarro do cachimbo. Quê havera de fazê? Não assanha mais minha paixão mas bota asa no meu pensamento e eu saio avuando por aí a fora, praneando outros agazáio nos braço de arguma sendêra.”

Naquela manhã de mato molhado pelo sereno da noite de verão, a novidade foi a chegada de Ritinha. Veio trazida pela mão de Aurora, a líder de pouca conversa, que fez uma apresentação sumária. –“ Minhas amigas, esta é a Ritinha, que agora vai trabalhar com a gente. Vocês não se lembram mas ela é filha do Filisso, aquele que os índios retalharam no facão. Teve morre-não- morre, mas terminou escapando e, desgostoso, mudou-se lá pras bandas do Amarante. Ritinha foi quenga por uns tempos, na Belém-Brasília, no cabaré Pisa no Freio, depois criou vergonha e fez famia. Seu marido, muito bebedor de cachaça e criador de embuança, foi costurado de pexêra numa briga de bodega. Ela veio, mais os dois filhos que tem, procurar refrigero aqui onde nasceu.”

Tipo engraçado, a Ritinha: moreninha, beiço e unhas bem pintados de vermelho, vestida de bermuda, bundinha arrebitada, cordão de ouro no pescoço, brinco de argola nas orelhas, cara safada, debochada, mas simpática como o diabo.

Luizona foi a última a chegar. Com Cirino de uma banda, cortaram conversa o caminho todo. Era dia do “adjutóro”dos homens no barracão. Uma vez por semana eles vinham remontar os montes de coco. Cada qual trazia seu jacá de ripa de taboca, trançada e arrematada com esmêro para não se abrir com o peso do babaçu. Quando Cirino bateu os olhos em Ritinha, sentiu um frio no espinhaço e a pinta do olho parece que aumentou, o que não passou despercebido por Luizona, que partiu para o ataque, inusitadamente: -“Quem é essa sirigaita de beiço pintado, que tem um cacete na mão e outro debaixo do braço, como se fosse mió quebradeira do que nóis?”

-“ Sei que a senhora é dona Luiza e eu sou a Ritinha: canelinha de aroeira / bracinhos de mororó. / no gume do meu machado / muito pau já virou pó.”

-“ Me arrespeite, mulequinha atrevida, que eu não lhe dei trela pra você me falar essas safadezas!”

-“ Não tem safadeza nenhuma, dona Luiza, a maldade está na sua cabeça. Veja esse cacete que a senhora tem na mão: se for tão boa quebradeira como o povo diz, de tardinha vai ficar só o pó em redor do machado.”

-“ É mesmo, minha fia, me discurpe eu ter amanhecido tão azogada.

Nós somo companhêra de função e a amizade é tão boa que não vale a pena a gente andá discutindo por quarqué toliça.”

No fim do trabalho daquele dia, a admiração foi geral. Um dos cacetes de Ritinha estava reduzido a frangalhos e o segundo, quase imprestável. A quantidade de “ bages” que ela juntara no cofo mediu vinte pratos, o que equivale a mais de uma lata e meia. Feito extraordinário entre as quebradeiras. Aurora, que era a mais velha, deu notícia de uma senhora Maria Caetana, da região do Nazaré, que chegou a quebrar trinta pratos num só dia.

Na casa de Luizona, depois da janta, ela e o marido costumavam fumar e prosear até a hora de dormir mas, naquela noite, o pé-de-conversa estava difícil pois, provavelmente, não queriam falar no incidente da Ritinha. Depois de algum silêncio, Luiza encontrou uma solução: - “ Cirino, tu não teve mais notiça do gavião reá? Faz uns dois mês que não escutei mais ele assubiá. Tive tanta pena quando os indio mataram a companheira dele. Não sei como é que se faz uma marvadeza daquela, um animá tão bonito e tão difice de andá se vendo nos dias de hoje.

-“ Luiza, tirante o papagaio, que quando perde o companheiro ou a companheira nunca mais se ajunta com outro, todos os bichos de pena que andam aos casá, quando se vê sozinho, canta, canta, canta e como ninguém arresponde ele se muda ou faz uma viagem procurando companhia. As vêis até vorta pro mermo lugá.”

O gavião real, gavião de penacho ou harpia é, talvez, a ave mais importante de nossa avifauna. Com um metro de altura por dois de envergadura, a águia brasileira, de olhar penetrante e garras poderosas, é capaz de alçar vôo içando nas unhas um filhote de veado, um bacorinho, um macaco-prego ou outros de porte parecido. Gosta dos horizontes descortinados e, por isso, constroi seu ninho na copa da árvore mais alta que houver no trecho de mata de seu domínio. Seu canto consiste em dois silvos longos: um agudo sustenido e outro mais grave, porém, com o mesmo comprimento: fiiiiiiiiiiiiii...êêêêêêêêêêê... . Luizona gostava de ouvi-lo cantar na boca da noite, pousado nas grimpas de um velho pau d’arco solteiro que se destacava no meio do cocal.

A rotina do barracão ficou mais animada com a presença de Ritinha. Nos intervalos do trabalho para a merenda ou mesmo para descansar os braços e estirar as pernas, ela costumava contar muitas passagens de sua vida. Dois anos de escola, cinco nos cocais do Amarante, três de Pisa no Freio e, por último, alguns meses como viúva, com dois filhos para criar. Tinha mesmo muito o que contar. A curiosidade maior era com as histórias do cabaré. Quando perguntada sobre a origem de uma imensa cicatriz que tinha no braço esquerdo, Ritinha desdobrou-se em explicações entremeadas por rasgos

filosófico existenciais. – “ Minhas amigas, a ilusão do cabaré se desmancha ligeiro demais porque a verdade é muito diferente. Em cabaré de beira de estrada, alegria de quenga é taca, desgosto e humilhação. Muitas vezes, é melhor a gente tirar o serviço embriagada, porque os pontapés se tornam mais suaves. Quem me deu este talho foi a Gerusa, que eu tinha na conta de uma grande amiga. Ela se dava com um chefe de grupo no serviço da estrada. Um dia ele chegou de surpresa, encontrando-a no maior grude com um peão. Homem violento, acostumado a impor o medo pela brutalidade, botou o peão para correr. Gerusa, agarrada pelos cabelos, na primeira bofetada foi ao chão, quase sem sentidos. Fui em sua defesa, e, com jeito e trejeito, convenci o seu carrasco a não machucá-la mais. Convidei-o a tomar uma cerveja, com a intenção única de acalmá-lo, mas Gerusa não entendeu. Levantou-se meio atordoada, foi ao seu quarto, e, furiosa, empunhando uma faquinha de ponta amolada como um quicé de sapateiro, apenas gritou: - larga meu homem, puta senvergonha e riscou o meu braço, do cotovelo até a munheca. Talho imenso, mas de pouca profundidade, que, aos cuidados do enfermeiro da estrada, sarou sem maiores dificuldades. Ficou só esse courinho mais alto, que o prático, muito entendido, me disse que o nome é queloide.”

Os donos do barracão avisaram às quebradeiras que, no dia seguinte viessem mais arrumadas, porque os alunos da escola da barra do Bonito viriam receber uma aula de quebração de coco e um professor da cidade iria filmar tudo. Hábeis artesãs, as quebradeiras cortaram alguns olhos de pindoba e com aquelas palhas amarelas e tenras confeccionaram as lembranças que dariam aos jovens visitantes: pequenas esteiras, abanos, cofos, chapéus e apitos. As cascas de coco foram arrumadas em dois montes, o barracão foi varrido e a casa ficou pronta para a aula do dia seguinte.

Algazarra de meninos, gargalhadas das quebradeiras. Luizona, muito bem penteada com laço de fita e outros apetrechos, vestia uma saia longa avermelhada e cintilante. Poderia muito bem ser chamada de Marquesa do Cocal, sem detrimento de outras marquesas que existiram por aí a fora. Como foi escolhida a professora do dia, usou da palavra iniciando a aula: -“ Vocês me discurpe o meu falar errado pruquê o meu estudo foi muito pouco e serve muito má pra votar nas inleição.” Muito pesada, ajoelhou-se primeiro para sentar-se, depois, sobre uma esteira. Os meninos, que também tinham suas esteirinhas, sentaram-se ao seu redor. A posição da quebradeira é extremamente desconfortante: sentada no chão com as pernas dobradas e enviesadas, o pé esquerdo fica praticamente debaixo da popa e o joelho, em flexão, pressiona o cabo do machado para que este se mantenha na vertical. A perna direita, livre, pode ficar flexionada ou estirada conforme o cansaço da posição. O cacete, com um palmo e meio, tem a grossura compatível com a palma da mão e é de madeira pesada e forte, com cerne entranhado. Cortado verde, deve ser assado na labareda, o que lhe confere maior durabilidade. A aroeira, o mororó, o jatobá de vaqueiro, a laranjinha, o marfim, entre outros, são os melhores.

- “ Como vocês viram, ferramenta de quebradeira é um machado bom, um cacete ajeitado e um monte de coco zarôio. O resto o tempo ensina.”

Muitas palmas, dos meninos e das companheiras. O professor que filmava pediu que Luíza cantasse uma daquelas cantiguinhas que elas entoavam quando estavam sós. Dizendo que tinha vergonha de cantar, Luizona concordou em recitar um “ pé de uma das cantigas: - “ o cacete trás lembrança / quando ele bate no coco / coitado do meu veinho / era tão bom ficou pouco.” Gargalhada geral. Luizona muito corada fez um muxoxo e recebeu o refrigerante que o menino lhe oferecera. Em pouco tempo o barracão foi esvaziando. A meninada foi embora e as quebradeiras voltaram às suas casas.

Aurora pediu a seu marido, Genaro, que construísse um ranchinho para Ritinha e seus filhos. Poderia ser ali perto mesmo. – “ Pois diga a dona Luíza que eu mando pedir ao compadre Cirino que venha me dar uma ajuda.”

No dia seguinte, cedo, Cirino cruzou, no caminho, com Aurora e Ritinha. Um rápido bom-dia, suficiente, porém, para lampejar seu olho vermelho nos de Ritinha: um arrepio no espinhaço dela e um fogo nas orelhas dele.

Em três dias a palhoça estava encaibrada, no ponto de receber a palha da cobertura e das paredes. Fazia-se necessário um terceiro participante. Naquele dia Ritinha não foi quebrar coco, ficou fornecendo as palhas para Genaro e Cirino amarrá-las na armação do teto de seu barraco. Um dado momento, Genaro desceu pela escada de bambu e foi lá mais adiante fazer uma precisão detrás de uma moita. Cirino, de cócoras, atava, com cipó, a palha ao caibro. Com um talo despalhado, Ritinha fez cócegas no sovaco suado do negrão. Ele virou o rosto, sério, e apenas disse: - “ dona Ritinha, nós precisamos ter uma conversa. Como não quero testemunha, nesses dois dias eu passo aqui pra gente acertar como vai ser.”

Em pouco tempo a casa ficou pronta: sala, camarinha e cozinha. Girau de vara na porta do fundo, forquilha de pote no canto da sala. “ O resto é serviço de muié,” no dizer de Cirino que, segurando a mão de Ritinha e a de Genaro, perguntou: -“ Ainda se lembra, cumpade, daquela tapage de casa que nós ajudamos lá no Santo Antonio ? Foi um mutirão de muita gente muita cachaça e alegria. Quando foi a boca da noite o nêgo Jacu chegou com seu pandeiro na mão. Nunca esqueci do primeiro pé do pagode que ele puxou: - No tempo da escravidão / o nêgo batia o chão / com o solado do pé / mas quando chegava a noite / se enrolavam na esteira / o neguinho e a muié / virando um novelo só / procotó, procotó, procotó.” Ritinha abraçou Cirino, e encostando a cabeça no seu peito, confessou estar amarrada e ferrada pelas mandingas do “ nêgo véio.”

No dia seguinte, o trabalho no barracão transcorreu sem maiores novidades embora, no fim do expediente, tenha havido uma choradeira danada quando, depois de muita insistência, Ritinha resolveu confessar o motivo que a fizera deixar o cabaré.

Fazia alguns meses que estava se dando, e muito bem, com um caminhoneiro paraense, típico representante da imensa região amazônica: moreno atarracado, cabelo preto escorrido, risonho, debochado, autêntico comedor de “galhinha no tucupi”. A cada dez dias ele passava, indo para São Paulo ou voltando para Belém. O pernoite era obrigatório no Pisa no Freio, e Ritinha enfeitava-se de sonhos e ternuras a cada passagem de seu amor de beira de estrada.

Numa tarde bonita de presságios benfazejos, ela e o seu caminhoneiro chegavam do ribeirão que corria ali pertinho do cabaré. Envoltos apenas em suas toalhas, viram saltar de uma carreta uma mulher ainda jovem, bonita, e duas crianças entre seis e oito anos, que ela segurava pelas mãos. Joel, o caminhoneiro, correu ao quarto de Ritinha, vestiu-se rapidamente, saindo de lá transmudado por uma máscara de ódio e, empunhando uma arma, dirigiu-se à mulher com os dois meninos. –“ Naquele dia em que te dei umas porradas na porta do Xumbregão, em Paraopeba, eu te avisei que se algum dia ainda me procurasses num cabaré seria o teu fim. Esqueceste?” E ergueu a arma como se realmente fosse atirar. As crianças, apavoradas, choravam abraçadas à mãe que, tresloucada, as empurrou de encontro ao pai e correu desabalada, tentando alcançar uma casa que havia do outro lado do asfalto. Uma freada brusca, um grito e a tragédia estava consumada. A caminhonete que atropelou Noemia deu marcha à ré, e o motorista, vendo Joel com um revólver na mão, desviou-se do cadáver e sumiu na estrada.

Joel fechou-se no mais profundo silêncio da natureza humana. A dramática realidade parece tê-lo arrancado bruscamente da leveza boêmia pelas estradas da vida e do coração. De uma só vez, Noemia e Ritinha se transformaram em duas pequenas nuvens, sumindo tristemente no ocaso dos amores findos.

Num velho cemitério que havia ali perto, Noemia foi sepultada. Joel, caminhando lentamente, trazia os meninos pelas mãos, como o fizera a mãe deles em sua última chegada. Sem olhar para trás e sem dizer uma palavra, subiu no caminhão, acomodou as crianças e partiu.

No dia seguinte, Ritinha era apenas uma lembrança no Pisa no Freio.

Voltara às suas origens de quebradeira. Um cordão de ouro no pescoço, um brinco de argola nas orelhas, uma cicatriz no braço e uma ferida na alma. Imensa ferida que jamais cicatrizaria e que, provavelmente, pelo resto de sua vida, de vez em quando sangraria um pouco.

As quebradeiras choraram, Ritinha também.

O dia seguinte foi um domingo. Cirino, pretextando procurar uma espera, ganhou o mato ainda cedo. Espingarda no ombro, facão na cintura, saiu cortando rumo cocal a dentro, até chegar no tronco do velho pau d’arco, onde o gavião gostava de cantar. Avivou uma velha trilha de apanhar coco e saiu exatamente no barracão. Com o facão, fez um marco no tronco do coqueiro que ficava bem na boca da trilha avivada. Uma jaó cantou não muito longe e Cirino, que sabia imitá-la com perfeição, assobiou, imitando o seu canto. Escondido atrás de um monte de cascas de coco, espingarda no rumo, assobiou mais duas ou três vezes e a franguinha riscou na orla do mato para receber o chumbo fino que a transformou em saboroso presente para Ritinha. No caminho, cortou um ramo seco de taquara, escolheu um gomo da grossura de seu dedo mínimo, cortou-o ao meio e, com a ponta do facão, fez um pequeno orifício dois dedos abaixo da boca do apito. Foi andando e cortou atalho para não passar no terreiro da casa do compadre Genaro.

- Bom dia, dona Ritinha ! Cadê os meninos ?

- Bom dia, seu Cirino! Os meninos foram buscar uma xícara de sal na casa de dona Aurora.

- Apois, o sal com esta jaó que lhe trouxe vão interar o armoço de vocês. Para evitar falação minha demora vai ser pouca.

Retirou do bolso o apito de taquara. Com o dedo indicador, vedou o orifício que fizera com a ponta do facão, soprou com força e um som fino e agudo viajou nas quebradas da mata. Sem parar de soprar, retirou o dedo e o silvo caiu de tom, parando somente quando se igualou ao primeiro em comprimento: fiiiiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêêê ...

- Já sei, seu Cirino! Esse apito é igualzinho ao assovio do gavião real. Lá onde eu morava tinha essa ave, e na escola, quando a professora falava nela, dizia que era “ o mais soberbo falconídeo da selva amazônica.” Só sei que por conta desse gavião moleque chiou na palmatória até que aprendemos o que era soberbo, falconídeo, rapinante e adunco. Quem saiu lucrando foi o Expedito, um mulatinho nosso colega, apelidado de venta de aruá, devido ter o nariz muito cacunda. Passou a ser chamado de falconídeo e aceitou, de muito bom grado, o novo apelido.

- Preste atenção, dona Ritinha! Quarta feira, quando o sol tiver pendido na regulação das três horas, você vai escutar o gavião assobiar duas vezes. Bote um coco de travessa no machado e dê duas pancadas fortes. É o sinal de que escutou. Na posição que você está sentada, bem na sua frente tem um coqueiro com uma lavragem de facão mais ou menos na minha altura. Ali é o começo de uma vereda que está avivada de novo. Dê uma discurpa quarqué e viaje de vereda afora inté nóis se 
encontrá.

Cirino voltou por cima do mesmo rastro. A pinta vermelha do olho direito cintilava faíscas de contentamento. Um pouco antes de chegar em casa, pegou o apito e, com habilidosa perfeição, imitou o soberbo falconídeo. Mal adentrou o portal, Luizona veio ao seu encontro. –“Meu véio, eu não assuntei direito porque tava ventando muito mas parece que o gavião reá está de vorta.”- “ É mermo, muié! A zuada das páia tava muito grande mas eu também escutei uma coisa parecida.”

Na segunda feira, parece que as quebradeiras tinham visto passarinho verde. Estavam alegres, comunicativas e brincalhonas. São os tais dias de alto astral, quando enxergamos a vida através da leveza dos sentimentos e comungamos a alegria do espírito que se manifesta, até mesmo num barracão de quebradeiras, onde a rudeza do trabalho brutaliza a expressividade.

- “ Ritinha me arresponda / e não faça ouvido mouco / quantos cocos tem no cacho / quantas bages tem no coco?

- “ Dona Luiza, na escola onde estudei nos ensinaram muitas coisas sobre o babaçu. A palmeira só fica adulta quando bota o primeiro cacho, o que só acontece com dez a doze anos de seu nascimento. Cacho pequeno, sem forma definida e com apenas vinte ou trinta cocos. Conforme vai ficando erada, aumenta a produção. A senhora já deve ter reparado que aqueles coqueirões velhos de quinze a vinte metros de altura, em nenhuma época do ano ficam sem cacho. É comum a gente ver quatro cachos de uma vez com diferentes épocas de maturação e uma cunca abrindo-se para nova florescência. Não sei exatamente quantos cocos tem um cacho adulto, mas posso lhe garantir que nenhum deles tem menos de duzentos.”

- “ Você errou a profissão, Ritinha! Em vez de quebradeira devia ser professora.

- “ Ainda não respondi a sua pergunta toda. O coco babaçu tem de uma a oito bages. De uma, de sete e de oito são muito raras e as de cinco são as melhores de quebrar.”

Ritinha, em sua impaciência, achava que as horas daquela quarta feira estavam correndo muito devagar. Afinal, olhou o relógio, e faltava pouco para as três. Levantou-se, saiu fora do barracão, ficou de costas para o sol e viu que sua sombra estava da metade de sua altura. Estava na hora. Angustiada, encostou-se numa forquilha. Um vento manso brincava nas folhas do cocal e o marco da palmeira parecia se transformar na pinta vermelha do olho de Cirino.

- Fiiiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêêê ............. Fiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêê ...

Luizona parou com a mão levantada segurando o cacete. Estranhou que o gavião cantasse àquela hora e, principalmente, cantasse duas vezes seguidas. Viu quando Ritinha entrou no cocal batendo na barriga como se sua ida ao mato tivesse outra finalidade. Viu também quando ela voltou algum tempo depois e notou que sua boca não estava mais vermelha de batom e que seu cabelo estava meio assanhado. Luíza balançou a cabeça como se afastasse um lampejo ruim que passara maldando no seu pensamento. Tratou de esquecer.

Quando chegou em casa foi logo perguntando ao Cirino onde ele estava às três horas e se tinha escutado o gavião cantar.

- “ Não, muié! Não escutei nada. Estava muito longe, lá embaixo na cabeceira do Imbé, olhando uns pés de mirindiba.

- “ Só me admirou que ele tenha assobiado duas vêis seguida e você sabe que no triviá leva um bom tempo entre um assobio e outro.

- “ As vêis ele arrumou uma companhêra e ela tenha cantado quase iguá com ele.

- “ Muito me admira um caçador véio como tu, prestador de atenção às coisas do mato, não saber que a feme do gavião só dá o segundo assobio, e assim mesmo é muito mais curto que o do macho.

Cirino, notando a patada que dera, mudou de assunto e a conversa morreu por ali mesmo.

A quarta feira seguinte amanheceu sombria. Nuvens temporãs acinzentavam os horizontes, o calor sufocava e os mosquitos atenazavam as quebradeiras. Sufocadas, descruzaram as pernas de cima dos cabos dos machados. Umas levantaram-se e espriguiçaram-se, outras ficaram sentadas e os mais variados assuntos animaram a tagarelice de todas.

Luizona começou a cantarolar uma modinha antiga. Uma companheira comentou: - parece que o Cirinão, essa noite, andou fungando no cangote de dona Luíza. Aurora deu uma gargalhada, Luizona respondeu: - Quá, minha fia! Fungou foi nada, isso é coisa que se acabou há muito tempo. Se ele ainda funga, só se for aí pelos matos debaixo de algum coqueiro, depois do meio- dia e passou o rabo do olho no rumo de Ritinha.

Caiu uma chuva mansa e aconchegante. Todas voltaram ao trabalho. Um vento brando e acariciante enxugou as folhas do cocal e o sol reluziu em toda plenitude. Ritinha, apesar do cabelo bem penteado, dos lábios coloridos de vermelho e do perfume no pescoço, era a máscara da tristeza encobrindo uma profunda ansiedade que lhe apertava o peito. Uma força misteriosa talvez lhe impedisse os passos no rumo da trilha mas, ela queria, ardentemente, que o gavião cantasse. Cirino não tivera oportunidade de traçar novos planos e agora estava ali encostado no tronco do velho pau d’arco, o suor descendo na testa, o olho vermelho cintilando e o apito entre os dedos como um instrumento de discórdia e de indecisão...mas o desejo falou mais alto.

- Fiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêê ............ Fiiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêê ...

Ritinha levou a mão ao peito como se acariciasse as pancadas do coração em descompasso. Não atravessou o coco no gume do machado, não deu as duas pancadas de resposta. Apenas levantou-se e encarou Luizona. As outras quebradeiras, pressagiando algum desentendimento, vieram juntar-se à velha líder que, aparentando a serenidade dos bons pensamentos, fez sinal para que Ritinha também se aproximasse, pois queria dizer-lhe uma coisa. – “ Acho que já matei a charada, dona Ritinha. Só queria lhe pedir o favor de levar uma lembrança minha e entregar àquele gavião safado.” Luíza, discretamente, enquanto falava ia puxando a aliança para bem próximo da junta média do dedo. Sem que ninguém notasse, colocou o anelar no corte do machado e, rapidamente, levantou a mão com o cacete, como se fosse decepá-lo. Não fora a rapidez de Aurora, teria mesmo consumado o seu intento.

- Que doidice é essa, dona Luíza ! Calmamente, ela respondeu que não era nada de mais. Apenas queria que Cirino recebesse uma lembrança sua. Como agora ele era metade gavião e metade gente, queria mandar-lhe o seu dedo com a velha aliança mareada pelo tempo. Talvez ele lembrasse que esse dedo caloso e argolado por um compromisso que foi feito perante Deus e os homens ainda valesse alguma coisa. Ritinha foi se afastando lentamente. Duas lágrimas de fogo riscavam-lhe o rosto. Já fora do barracão, sentindo que no peito estava prestes a desabrochar uma flor de sangue do tamanho de Luizona, lembrou da mulher de Joel e gritou desesperada: - “ Perdoe-me, dona Luíza! Adeus minhas companheiras !

Correu até sua morada, arrumou as crianças e foi esperar carona na beira da rodagem

As notícias que chegaram ao barracão davam conta da partida de Ritinha. Fora vista na rodoviária de Tocantinópolis, com as crianças, e embarcara no rumo do sul para bem longe dos cocais de suas desventuras, como ela mesmo respondera, quando indagada para onde ia. – “ Vou indo no destino das lonjuras, o mais distante possível do Pisa no Freio, dos cocais, de dona Luíza e do gavião real.

Murilo Bahia B. Vilela

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