À minha Esposa - Afonso Celso

À minha Esposa
Sim! Tornou-se-me leve a cruz que eu vinha
A carregar por íngreme ladeira,
Graças ao teu auxílio, ó companheira,
Cireneu de meu fato - esposa minha.

Sobre a data gentil de nosso enlace
Já dos anos avulta a cinza fria;
Mas, desde então, não se passou um dia,
Sem que eu aquele dia abençoasse.

Me ser sem ti era incompleto. Agora
Deparas-lhe ao viver força e motivo:
- És o porto de paz definitivo,
Onde o batel de meu desejo - ancora.

Nos sorrisos e lágrimas de lacta
Tão gêmeas sempre as almas nos têm sido,
Que não há numa o mínimo vagido
Que noutra logo após não repercuta.

Em derredor do nosso afeto puro,
Que o lar nos enche de calor e brilhos,
Gira a constelação de nossos filhos,
Iluminando os limbos do futuro.

Sim! sou feliz! feliz se num degredo,
Onde o amanhã só de incertezas traja,
Dizer-se possa que venturas haja...
Sim... tão feliz que às vezes tenho medo.

Como a dos corações, em nosso ninho,
Conformidade estreita e harmoniosa,
Nem nas pétalas iguais da mesma rosa,
Nem nas asas irmãs de um passarinho.

Anjo meu tutelar, mimo que abriga
Reta razão, espírito valente,
Sócia fiel, segura confidente,
Ó minha santa, ó minha doce amiga.

Meu talismã, meu dom precioso e raro,
Minha estrela polar, minha riqueza,
Meu sonho, minha flor, minha princesa,
Minha fé, meu orgulho, meu amparo,

Quem me dera que vínculo tão forte
As vidas nos unisse a vida inteira,
Uma noutra a embeber de tal maneira
Que as desatar não conseguisse a morte!

As nossas almas n’amplidão etérea,
Do pesadelo terrenal despertas,
Hão de oscular-se bem melhor, libertas
Das subalternas formas da matéria.

E, na vida de além, que continua
Eternidade afora, sem limite,
Quero-as tão juntas que até Deus hesite
Em dizer qual a minha, qual a tua.

Afonso Celso



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