O BRASIL NOVO - Luiz Delfino

À AMÉRICA

O BRASIL NOVO


Livre enfim dos seus últimos ferros,
Das cadeias mais vis desatado,
Calmo, forte, invencível, ao lado
Dos irmãos desta América o vês:
Livre, em pé, ante o mar e menos livre,
Não lhe enturva a vergonha o semblante,
De ter ele —tão grande e possante—
Um senhor, que o avassala, em seus reis.

Levantado em montes, e serras,
Do áureo plinto de folha e granito,
A águia branca, que roça o infinito,
Vê subir; e ele inveja não tem:
Rubra aurora, que o cinge e o encontrava,
Hirta a fronte, empanada de pejo,
Sente, que hoje, imprimindo-lhe um beijo,
Beija a fronte de um livre também.

Já não mancha esta América vasta,
O Brasil, vasto, enorme, colosso,
Aço rude de escravo ao pescoço,
No olhar largo de um deus o pesar:
O farrapo de treva deixado,
Pelo tempo já ido em seu dorso,
N’um momento, n’um último esforço,
Sacudiu em mil voltas no ar.

Renascemos p’ra América livre:
Viva a América livre e sem peias:
Fundam todos as velhas cadeias,
Peso ignóbil da nossa cerviz:
Tudo à forja; renove-se tudo,
Da cidade ao recesso da mata,
Desde as cristas dos antes ao Prata;
Arda em luz toda nova o País.

Liberdade, ó gentil foragida,
Deus austera entre as deusas austeras,
Tu chegaste, e contigo outras eras,
Outros sóis, outros céus mais azuis:
Há no ambiente uns aromas mais novos,
Bater d’asas à borda dos ninhos...
Listrões d’oiro bordando os caminhos:
Luz, mais luz... muita luz... muita luz

Há rosais pelas bocas sangrentas
De suas rosas cantando perfumes...
Dança louca de estrelas e numes,
Dança louca de ondinas e sóis...
Canta envolto nas algas e espumas,
O ombro nu, verde, um pouco de fora,
Mesmo oceano, que ri e que chora,
Chora e ri, junto à praia, entre nós.

Astros d’oiro, estrelados abismos,
Reis e deuses, é livre, quem pensa,
E não tem outra fé, outra crença,
Outro amor, e esperança não tem,
Que não seja esta luta perene,
Contra vós fatalmente levada:
Deus, és tu, Liberdade, e mais nada:—
Céu, és tu, ó conquista do Bem.

Viva a América livre entre os povos,
Livre e só entre os mais continentes:
Honra e glória ao imortal Tiradentes;
O patíbulo hoje é o seu pedestal:
Honra e glória aos soldados da pátria;
Honra e glória a este povo sublime,
Que dos reis, que dos vis se redime,
Calmo ainda na ebriez triunfal.

Oh! Romano, a virtude é só nome?
Tu negando-a afirmaste a virtude:
Dás na ação e na doce atitude,
Brasil livre, e senhor dos teus reis,
Um exemplo inda novo, e não visto:
Esta terra, esta gente, esta raça
Arroubada a este sopro, que passa,
Ser o espanto do Tempo vereis.

Esta grande conquista foi nossa...
Nossa enfim: nenhum rei no-la tira:
Nem o poeta a renega na lira,
Nem a história há de, infame, a negar:
Fomos nós, que esta pátria avivamos:
Fomos nós que a fizemos de novo:
Glória! Glória à conquista do povo,
Que rompeu a prisão secular.

Maldição sobre as frontes vergadas,
Sobre as mãos estendidas, buscando
Vida, sangue em cadáveres, quando
Tudo é grande— olha em torno e verás:
Tudo é grande, e cascalham risadas,
Que andam rindo já dentro da história,
Que recolhe este dia de glória,
Obra nossa, e de avós, e de pais...

Rei? Não mais: não queremos; não vinga
Entre nós essa raça maldita,
Que só crê, pensa, e sonha, e medita,
Ter no povo, que a sofre, uma grei;
Planta exótica e má d’outras zonas,
D’outros céus, d’outros sóis, d’outra esfera,...
Quem de um rei senão ferros espera?
Bastou já: não queremos mais rei.

Que é um rei?— É um ídolo apenas,
Que a ambição e a ignorância levanta,
A que o bravo não dobra uma planta,
Baixo culto dos tímidos só:
Vulto erguido do meio dos povos,
Como a sirte nos mares deitada,
Onde a vaga, que a toca, esmagada,
Não é mais vaga, é uma nuvem de pó.

Sabeis vós, pobres povos incautos?
Antes que um grande povo apareça,
E o homem possa erguer alto a cabeça,
Possa ver d’alto auroras e sóis,
Quanto ferro batido no ferro,
Quanto sangue inocente esgotou-se;
Como flores caídas à fouce,
Quantas frontes caíram de heróis!

Não queremos mais rei, o mais sábio,
O mais justo, o mais forte, o mais casto:
Salomão com juízo tão vasto,
Com leis novas um novo Moisés:
Mesmo Deus, que outra vez se lembrasse
De ser rei, entre estrelas surgisse,
Belo, grande, amor todo, e meiguice,
Não golpeadas as mãos nem os pés.

Não— Ninguém tente a empresa arriscada
De irritar o Leão generoso;
Ninguém tome o seu calmo repouso,
Como falta de audácia: olhai bem:
Pôr-lhe um rei hoje ao alcance das garras!...
Dize ao raio, buscando-te, espera:
Passa ileso através da cratera:
Mas não tente esse crime ninguém!

Norte e sul n’um amplexo eviterno,
N”um delírio de crença e igualdade,
Jurem todos por ti, Liberdade,
Jurem todos viver ou morrer:
E se um dia no campo de luta
Alguém ouse atacá-lo, covarde!
Saiba o culto, que n’alma arde,
Sinta, como é cumprido um dever.

Brasileiros, guardemos unidos
O torrão desta pátria querida:
Demos tudo que é seu, alma e vida;
Tudo à pátria é preciso entregar:
Tudo é dela: a ela tudo devemos:
Esta pátria hoje é nossa de todo:
Arrancou-se este escrínio do lodo,
Arrancou-se esta pérola ao mar.

Velhos reis medievais, velhas raças,
Entre anseio, entre susto, entre pasmo,
O Brasil, com seu calmo entusiasmo,
Grande assim, não podíeis supor:
Vistes, forte, explosir o improviso
Quem vós crieis tão baixo e tão nulo!...
Assim rompe de negro casulo
Flor aérea de esplêndida cor.

Assim rompe uma estrela a Colombo,
Outros sóis se constelam no espaço,
E d’entre algas, corais, e sargaço,
Outro mundo aparece a Cabral;
Assim surge essa nova bandeira
De repente por terras e mares...
Dize aos povos, por onde passares,
Que és de um povo já livre o fanal.

Lavas tu uma nesga vermelha,
Que recorde o ser livre, o que custa?
Muito sangue, que a raça robusta
Deu à terra, e que à terra há de dar:
Preito ao sangue de heróis deslembrados,
Nos calvários das forcas trepando:
É assim, pavilhão venerando,
Que ir tu deves por terra e por mar.

És a paz, ó bandeira da pátria?
És a paz:— mas a paz aconselha,
Que o clarão dessa aurora vermelha
Deve em todos os céus resplender:
Mostras nele a lembrança do sangue,
Que, se agora não foi derramado,
Rios dele há contudo custado:
E ainda há sangue, inda há sangue a perder!...

Que cadeias nos cercam, que fios
Invisíveis, como hera selvagem,
Que entre fendas buscando passagem
Muros prende, que em torno abrangeu:
Que heras doidas envolve nossa alma!
Somos livres, mas fomos escravos:
E inda temos as pontas dos cravos
Que pregaram a cruz de Prometeu.

E inda resta essa velha atitude
D’alma humana esmagada e vencida:
Triste sim!, Liberdade querida,
Largo tempo esse gesto hás de ver:
Bate à malho Canôva o Carrara,
Berrecil bate a prata à martelo;
Cada golpe é o vagido do belo;
N’alma humana é preciso bater.

E a alma humana desperta e festeja
Seu primeiro triunfo; ela sente
Ser levada por nova torrente,
Haustos sorve de vida auroral:
Tem a terra ante si dilatada.
Tem o céu brasileiro o mais puro...
Como é grande o seu grande futuro,
Liberdade, ao teu grande ideal!...

Furacões de jasmins e açucenas,
Céus, que arranco do céus aos pedaços,
Sóis inquietos, que prendo em meus braços,
Ígneas rosas, cecens da manhã,
Veigas d’oiro em dous dedos de mata...
O meu hino isto tudo desata
A teus pés, pátria minha louçã

Sim! é livre o Brasil!... E ainda ontem
Libertado do escravo, se ouvia
Louco brado de louca alegria
Soar no mundo:— essa nódoa era vil,
Larga, extensa, profunda, horrorosa!...
A dos reis, mais hedionda, restava!
Bravo à terra não deles escrava!...
Bravo! Bravo!... Está livre o Brasil—

Luiz Delfino



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