Luís Gama - O Balão

O Balão por Luís Gama

Requeiro oh Musa,
Do grande Urbino,
Pincel divino,
D’alto rojão;
De Tasso o gênio,
De Homero a fama,
Que o mundo aclama,
D’áurea feição.

Que cantar quero,
Vibrando o plectro,
Com doce metro,
Ancho balão;
Erguendo aos ares
Novas esferas,
Tontas megeras,
De rubicão.

Guapos rapazes,
Velhos caducos,
Sandeus malucos,
Por devoção;
Que, por pacholas,
O siso despem,
E à moda vestem,
Lá do Japão.

Rompa-se a marcha!
Eis um capenga,
Que untada a quenga
Traz de sabão;
Andar cadente,
No gesto grave,
E grossa trave
Tem por bastão!

Oh! que prosápia!
Traja com gosto,
Tem o composto
De um figurão!
Vem atacado,
E tão rotundo,
Que afronta o mundo,
Com seu balão!

Desfez-se o homem,
E não é peta,
Fez-se planeta,
– De Escorpião –!
Tem gás na pança,
Suspiro e bomba,
– Astro de tromba,
Luz de alcatrão!

Olá! que vejo!
Qual nívea estrela,
De luz singela,
Tem o clarão!
Mimosa fada,
Que os gênios doma,
Ampla redoma,
Do Indostão!

Faz mil requebros,
Gentil donzela,
Qual rosa bela
Contra o tufão;
Salta e corcova,
Como charrua,
Quando flutua,
Sem capitão!

Silêncio! é ela!
Tão vaporosa
Vem, e formosa,
– Que treme o chão!
Gordo cetáceo,
Deixando os mares,
Que afronta os lares,
Sobre um balão!

Eu te saúdo,
Oh tartaruga,
Romba taruga,
De barracão!
Monstro que alojas,
Sob os babados,
Dez mil soldados,
Do rei Plutão!

Planeta aquário,
Veloz, possante,
Que vaga errante,
Sem região;
Farol tremente,
D’estreita barra,
Que o leme emparra,
Do galeão.

Diz a gazeta,
(Caso de fama)
Que certa dama,
Numa função,
Fora atacada,
De flato horrível,
Que a pôs hirtível,
No raso chão.

Doze mancebos
A carregaram,
E colocaram,
Sobre um colchão,
E a castidade,
Sem ofenderem,
Para fazerem,
Fomentação;

Foram tirando,
Sem causar mágoas,
Fofas anáguas,
De camelão;
Curvadas molas,
Arcos de pipa,
Cordas de tripa,
E um rabecão.

Caixas de guerra,
Rouco zabumba,
Que além retumba,
Como trovão;
Felpuda palha
Para viveiros,
Dois travesseiros,
E um trombão.

Eis que debaixo,
Do tal babado,
Pula espantado,
De supetão,
Tremendo gato,
Miando, aflito,
Mais esquisito,
Que um sacristão!

Bradaram todos –
Que era feitiço,
Ou malefício,
De Faetão,
Chamou-se logo,
Para o sinistro,
Certo ministro
Do Alcorão.

Chega o bojudo,
Doutor Trapaças,
Que tem fumaças,
De sabichão;
Pega na pena,
Lavra a receita,
– Para maleita –
Chá de gervão.

Suspira a moça,
No brando leito,
De novo aspeito,
Se amostra então;
Era a doença,
Pobre inocente,
A lava ardente,
Do seu balão!

Casos de estrondo,
Já se tem visto,
Que aqui registo,
Do tal balão,
Atendam todos,
Não façam bulha,
Que tem borbulha,
A narração.

Se algum marujo,
Fino tratante,
Faz-se de impante
Politicão;
Muda de credo,
Vira a casaca,
– O gás ataca,
No seu balão.

Mas se perdendo
A Tramontana,
Qual Zé-Banana,
Pilha o tufão;
Foge ao perigo,
Deixa a catraia,
Buscando a praia,
É charlatão.

Inda que berre,
Inda que brade,
Qual rubro frade,
Com mau sermão;
Um povo inteiro,
Lhe diz em face:
És um falace
Camaleão.

Se na fachada,
De um bom marido,
Que foi traído,
Surge um polmão;
Exclama a esposa,
Que são esguichos,
Os tubos fixos,
Para o balão!

Quem tal diria,
Que na fachada,
Tão respeitada,
Do cidadão,
Se assestariam,
Torcidas molas,
Curvas bitolas,
Para o balão!...

Rengas moçoilas,
De pernas finas,
Têm lamparinas,
Óleo e carvão;
Para empinarem,
O bojo enorme,
Do desconforme,
Monstro balão.

Também a velha,
De gâmbia esguia,
Traz, por mania,
Fofo balão;
Mas, rota a bomba,
É qual sanfona,
Que zune e trona,
De cantochão.

Boçais donzelas,
Finas varetas,
Magros cambetas,
Têm seu balão;
Gás hidrogênio,
Tão sublimado,
Que, destampado,
Faz de trovão!

Não há cegonha,
Torta gazela,
Nem magricela,
Que de balão;
Não faça rodas,
Com tal rebojo,
Que vence, em bojo,
Néscio pavão!

Nem rapazola,
Parvo e pedante,
Que todo limpante,
Qual histrião,
Não julgue ousado,
Pobre pichote,
Ser Dom Quichote,
Sobre o balão!...

E tu, oh gênio,
Sublime e raro,
A quem deparo,
Nesta invenção;
Nas áureas letras,
Da sábia história,
Verás a glória –
Na exposição.

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