Luís da Gama - Os Glutões

Os Glutõespor Luís da Gama

Oh tu quadrada Musa empavesada,
Soberana rainha da papança,
Borrachuda matrona insaciável
Que tens o corpo pingue, e larga pança;

Oh tu arca bojuda que resguardas
O profuso fardel das comidelas;
Amazona terrível, devorante
Té capaz de engolir mil caravelas:

Esganiça o pescoço longo-estreito,
Em linha põe os teus animalejos,
Os hórridos abutres, feios lobos,
Porcos, galinhas, gatos, percevejos.

Vem à triste morada do trovista
Um canto lhe inspirar que cheire a bife,
Para a fama elevar dos lambareiros
Sobre as grimpas do monte Tenerife.

Vem filha do pincel do grande Alcíato
Dourar os versos meus que, descorados,
Não podem atrair leitores sábios,
Amantes da lambança e bons guisados.

Derrama nestas linhas desbotadas
O perfume odorante da linguiça,
Do paio português, do bom salame,
Que a fome desafia, e nos atiça.

Transmuda o negro véu da escuridão,
Que a vista me detém, cerrando os olhos;
Um quadro me apresenta em que divise
Saboroso pastel com seus refolhos.

Presuntos de Lamego, perus cheios,
Roasteebiffs e leitões, tenras perdizes,
Tostado arroz de forno, nabos quentes,
Gansos, marrecos, patos, cordonizes.

Fervendo, em níveas taças cristalinas,
Espumante Champagne, jeropiga,
O bastardo, o madeira, o porto velho —
Que tem a via láctea na barriga.

Cerveja da godêmia, marasquino,
O licor .de Campinas, decantado,
Que faz sua visita, pelas onze,
À gente de focinho alcantilado.

Bojudos garrafões, quartolas cheias,
Em linha de batalha, a romper fogo,
À súcia comilona provocando
A gula saciar, por desafogo.

O coro das bacantes estrondosas
Em delírio bradando o — evohé;
Num canto a negra morte esborneada,
Tomando uma pitada de rapé.

Fortalece meu estro, oh grande Musa,
Estende os cantos meus pelo Universo,
Que um hino a teus alunos se consagre,
Se tão sublime preço cabe em verso!

Dos glutões já cadentes leio a fama
Nas páginas de um livro quinhentista;
Vejo a gula amolando as férreas garras,
Para em guerra tenaz fazer conquista.

És tu valente Clódio — o fero Aníbal,
Que rompendo na frente dos papões,
Vais mostrar a potência gargantona
Dos xeques da bebança, e comilões.

Refere o grão Macedo, autor de nota,
Que só tu numa ceia chupitaste
De saborosos figos uns quinhentos
Além de dez melões que inda mamaste.

E, para terminar o tal repasto,
De tordos seis dezenas consumiste,
Do fruto da videira vinte arráteis,
Com mais ostras quarenta que engoliste.

Melon Grotoniense, por bazófia,
Um touro devorou, de quatro anos;
Teógenes também, famoso atleta,
Por aposta comeu três bois cabanos.

E Fágon, em lauta mesa — à custa alheia,
Transportou para a pança três leitões,
Dois carneiros, um ganso, um javali,
De centeio cem pães, quatro melões.

Mitrídates honrou com pompa e cultos
Os vivos sorvedouros ambulantes,
Com prêmios distinguiu canina fome,
Dos ávidos abutres devorantes.

Cambises rei da Lídia, em certa noite,
Atracou-se à consorte com tal gana,
Que a meteu inteirinha no bandulho,
Como quem embutia uma banana!

O ébrio Filoxênio lamentava
Um pescoço não ter de braças mil,
Onde o vinho corresse a pouco e pouco,
Como corre das pipas num funil.

A fecunda Bretanha viu, com pasmo,
Um filho dessa Roma armipotente,
Que de seixos comia cinco arráteis,
Um bode semimorto, e meio quente.

E tão feia a garganta se a mostrava,
Que em horror excedia uma cratera;
E tão forte o apetite que nutria,
Que a si próprio comera, se pudera!

Outros muitos heróis refere a história,
Que deixo de narrar, por carunchosos,
De feitos singulares, tão tremendos,
Que os guerreiros deslustram mais famosos.

Desdobre-se a cortina bolorenta
Sobre os nomes dos filhos lá da estranja;
Repimpe-se no templo da vitória
Os brasíleos heróis que comem canja.

Vinde, oh Ninfas cheirosas dos outeiros,
De noturnas essências perfumadas
Mimosas cavalgando urbanos tigres,
Os nomes borrifar-lhes; vinde, oh Fadas!

No vasto panteão quero que brilhem
Os lúcidos varões do meu país;
Em tela de algodão pintados sejam,
Com borra de café, água de giz.

Etéreo Caravaggio trace as linhas
Dos comilões de rúbidos toutiços,
Que o tonel das Danaides tem por pança
Onde cabem, sem custo, mil chouriços.

Calem-se os Celtas, Gregos e Romanos;
Silêncio! oh tuba Aônia e Lusitana!
Erguei-vos, oh glutões da minha pátria,
Temos coco, caju, temos banana!

E tu, audaz Macedo, registrante,
De ronceiras façanhas já caducas,
Vê quebrarem-se .as guelas portentosas
Quais se quebram no chão frágeis cumbucas.

Dos Clódios e Milões prodígios altos,
Do ébrio Filoxênio heróicos feitos,
Sem viço, desbotados, já sem cores,
Por terra vão caindo, em pó desfeitos.

Junto deles assoma ousado e forte,
O dente arreganhando, um deputado,
Que com quatro apoiados retumbantes
Nos cofres da Nação tem manducado.

Um longo diplomata aparvalhado,
Com pernas d’aranhiço, extenso pé,
Que na Europa se fez profundo e sábio,
No tráfico do fumo e do café.

Retumbante engenheiro de compasso,
O lume encaixotando nos planetas,
Metendo em Capricónio, Libra e Vênus —
O sonante metal chucha com tretas.

Centenas de empregados — gente limpa,
Que os penedos não rói, por não ter dentes,
Encaixando no fardel das comidelas
A Pátria reduzida a dobrões quentes.

Famintos tubarões, sedentos monstros —
Imortais tesoureiros d’obras pias,
Que engolem pedras, o metal devoram —
Sem que ronque a barriga em tais folias.

Os sagazes carolas d’ordens sacras,
Vigários, andadores, sacristães,
Que tragam num momento, Igreja e Santos
Sem meter na contenda os capelães.

Oh, se Deus sobre a terra derramasse
Moedas de quintal, causando horror,
Inda assim saciar não poderia
A fome dum voraz procurador!

Prestante pai da pátria — homem de peso!
Entre rato e baleia — acachapado —
Morde aqui, rói ali, lambe acolá —
Mete dentro do bucho o Corcovado.

Se quereis, ó Leitor, ver já por terra
Cambises, que engoliu sua consorte,
Sim, prodígio maior vos apresento
Um Ministro vos dou — papal Mavorte.

Que abusando das leis da natureza,
À mãe pátria se agarra, como louco;
Cupita a pobre velha, e logo brada,
(Batendo no bandulho) — inda foi pouco!...

Deixemos, pois, atrás a glória antiga,
Das potentes gargantas esfaimadas;
Hosanas entoemos furibundas
As modernas barrigas sublimadas.

Que feitos gloriosos, desta laia
Gravados viverão na lauta história,
No perfume do vinho, e dos guisados
Voarão sobre as asas da memória.

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