Flor sem nome - Bernardo Guimarães

Flor sem nome

Ela nasceu no ermo em um rochedo
Sobre a fauce do abismo pendurado.
A flor sem nome, alardeando o viço
E a linda cor do cálix orvalhado.

O sol, quando surgiu, veio afagá-la
Com todo o amor dos brandos raios seus;
Mas ao deixar o céu em vão buscou-a
Para dizer-lhe adeus.

Tépidos beijos lhe imprimiu no seio
A brisa da manhã,
Voltou logo depois; passou gemendo,
Pois não viu mais no vale a flor louçã.

O colibri no seu mimoso cálix
Esvoaçando doce humor libou;
Veio depois inda outra vez beijá-la,
Não a viu mais, e triste se afastou.

Etérea flor no lodo vil do mundo
Jamais teve raiz,
E nem o pó da terra enxovalhou-lhe
O virginal matiz.

A perfumada viração da aurora
Em sossegado adejo
Embalou-a no límpido ambiente
Com brando rumorejo.

E ela agitando as pétalas mimosas
Ao sopro afagador da mansa aragem,
Sorrindo para o céu não viu do abismo
A tétrica voragem.

E todos, os que a viram, de encantados
- Que linda flor! clamaram;
Mas ninguém a colheu; nas mansas asas
As virações celestes a levaram.

Alma tenra e gentil, assim te foste
Levando intacto da inocência o véu;
Brisa fagueira te levou nas asas
Para os jardins do céu.

Eras de um mundo mais feliz que o nosso;
Vicejar sobre a terra não pudeste;
E com os anjos, teus irmãos, te foste
Para a mansão celeste.

E belo assim murchar inda na aurora,
Sem crestar-se do sol ao vivo ardor,
E uma alma imaculada como o lírio
Nas mãos de Deus depor.

Bernardo Guimarães

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