Ao meu aniversário (15 de Agosto) - Bernardo Guimarães

Ao meu aniversário (15 de Agosto)

Eis-te de novo às portas do Oriente,
Fatal dia de agosto,
Que cada vez mais feio e mais tristonho
Vais me mostrando o rosto.

Já me achas mais velho, e mais disposto
A debicar contigo,
Do que a te saudar com aqueles hinos
De meu bom tempo antigo.

Por que razão tão cedo cá vieste
De novo aparecer-me?
Não sabes que o teu rosto já tão visto
Só pode aborrecer-me?

Que me trazes de mimo? - mais um ano,
Mais uma ruga à fronte,
E a campa, que lá surge mais distinta
Nas brumas do horizonte!

Que tens de me contar de interessante?
Que um ano mais de idade
Conto além de outros muitos que me deste?!
Oh! grande novidade!

Já lá vão lustros seis, e mais dous anos,
Que encontras-me na vida,
Cada vez mais moído e atrapalhado
Nesta enfadonha lida!

Até quando pretendes oprimir-me
Com o tremendo fardo
De anos e anos, com que os ombros vergas
Do teu infeliz bardo?

Anos, - e nada mais - eis o que trazes
A quem viste nascer:
E queres que com brindes te festeje,
Com hinos de prazer?

Ai! que nem tardo a ver-te do Oriente
Nas púrpuras louçãs,
Trazendo-me de envolta as senis rugas,
E um punhado de cãs.

Depois - virás ainda derramando
Dos raios teus o brilho,
E na face da terra entre os viventes
Não mais verás teu filho!

Mas... que te importará mais essa gota
Que se secou nos mares?
Mais essa folha que caiu da coma
Das selvas seculares?

Passarás, - e teus ledos esplendores
Virão pousar risonhos
No leito em que eu estiver dormindo o eterno
Sono que não tem sonhos.

E nem palpitará aos teus sorrisos
Mirrado o coração,
E nem se aquecerão meus frios ossos
Na gélida mansão.

Estou certo que quando sobre a terra
Achares-me de menos,
Luto não trajarás, e nem teus raios
Serão menos serenos.

Nem pretendo que ao veres meu sepulcro
De horror voltes a cara;
Antes desejo que o inundes sempre
De luz serena e clara.

Podes sorrir, cantar sobre meu túmulo,
Que não darei cavaco;
Nem pode a tua luz turbar-me o sono
Lá no meu antro opaco.

Mas se acaso doer-te a inglória sorte
Do mísero poeta,
Que como sombra vá sem ser sentido
Tocou a fatal meta,

Dirás aos que algum dia procurarem
Saber quem ele fora:
"Eu vi nascer aquele que tranqüilo
"Aqui repousa agora.

"Foi um desses que passam sobre a terra
"Em êxtases profundos,
"Escutando as canções que a seus ouvidos
"Ecoavam de outros mundos.

"Agitava-lhe a alma de contínuo
"Um surdo furacão;
"Tinha no seio o fel das amarguras,
"No cérebro um vulcão.

"Andava só; - espessa cabeleira
"Como nuvem sombria,
"Negra, em desordem flutuando ao vento,
"A fronte lhe cobria.

"E no vago do olhar turvado e triste
"Uma alma ressumbrava,
"Que um pego de amargura e desalento
"No seio concentrava.

"Cansado de vagar por este mundo
"Sonhando um paraíso,
"De atroz sarcasmo às vezes pelos lábios
"Lhe doudejava um riso.

"Longo tempo, em vãos sonhos embalado
"Viveu só de esperanças;
"Mas depois... só nutria o pensamento
"Do fel de agras lembranças.

"Não foi o fado que o tornou tão triste;
"A própria natureza
"Já desde o berço lhe entornara n'alma
"O gérmen da tristeza.

"E nos lábios dos outros muitas vezes
"Risos brotar fazia
"De prazer jovial, que dentro d'alma
"O triste não sentia.

"Morreu, coitado! - este sepulcro humilde
"Lhe serve de jazida;
"Dai-lhe agora na morte, oh! dai-lhe as flores
"Que não colheu na vida."

E esta?! - comecei sobre este assunto
Um canto joco-sério:
Eis senão quando vejo-me envolvido
No pó do cemitério!...

És tu, dia fatal, és tu culpado
Deste funéreo sonho,
Que já por morto, e hóspede me dava
Do túmulo medonho.

É tu que assim me trazes à lembrança
Um triste cenotáfio,
E na campa me pões, lavrando eu mesmo
O meu próprio epitáfio!

Se lembravas-me outrora a luz primeira,
Sorrindo-me ao nascer,
Hoje lembras-me só que se avizinha
O tempo de morrer.

Vai-te, ó dia importuno - vai-te azinha
Ó tu, que em meu costado
Inda mais um janeiro sem remédio
Deixaste-me pregado

Vai-te depressa, - mas em tua volta
Não venhas a correr,
Pois quanto a mim, nenhuma pressa tenho
De cá tornar-te a ver.
E para que não veja-te na vida
Raiando tantas vezes,
De hoje em diante comporei meus anos
De vinte e quatro meses.

Vai-te, ó dia importuno - vai-te azinha,
Ó tu, que em meu costado
Inda mais um janeiro sem remédio
Deixaste-me pregado.
Vai-te depressa, - mas em tua volta
Não venhas a correr,
Pois quanto a mim, nenhuma pressa tenho
De cá tornar-te a ver.

E para que não veja-te na vida
Raiando tantas vezes,
De hoje em diante comporei meus anos
De vinte e quatro meses.

Bernardo Guimarães

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