Quadras ao gosto popular (2) - Fernando Pessoa


Duas horas te esperei
Dois anos te esperaria.
Dize: devo esperar mais?
Ou não vens porque inda é dia? 


Toda a noite ouvi no tanque
A pouca água a pingar.
Toda a noite ouvi na alma
Que não me podes amar. 


Dias são dias, e noites
São noites e não dormi...
Os dias a não te ver
As noites pensando em ti. 


Trazes a rosa na mão
E colheste-a distraída...
E que é do meu coração
Que colheste mais sabida? 


Teus olhos tristes, parados,
Coisa nenhuma a fitar...
Ah meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar! 


Depois do dia vem noite,
Depois da noite vem dia
E depois de ter saudades
Vêm as saudades que havia. 


No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem lá estar. 


Vale a pena ser discreto?
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena. 


Rosmaninho que me deram,
Rosmaninho que darei,
Todo o mal que me fizeram
Será o bem que eu farei. 


Tenho um relógio parado
Por onde sempre me guio.
O relógio é emprestado
E tem as horas a fio. 

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