Poemas de amor

Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

Manuel Alegre

Se é Doce

Se é doce no recente, ameno Estio 
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores, 
E, lambendo as areias e os verdores, 
Mole e queixoso deslizar-se o rio; 

Se é doce no inocente desafio 
Ouvirem-se os voláteis amadores, 
Seus versos modulando e seus ardores 
Dentre os aromas de pomar sombrio; 

Se é doce mares, céus ver anilados 
Pela quadra gentil, de Amor querida, 
Que esperta os corações, floreia os prados, 

Mais doce é ver-te de meus ais vencida, 
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados. 
Morte, morte de amor, melhor que a vida.


Bocage

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade


Meu amor tanto vos quero

Meu amor tanto vos quero,
que deseja o coração
mil cousas contra a razão.

Porque, se vos não quisesse,
como poderia ter
desejo que me viesse
do que nunca pode ser?
Mas conquanto desespero,
e em mim tanta afeição,
que deseja o coração.

Aires Teles


O Amor

O amor, quando se revela, 
Não se sabe revelar. 
Sabe bem olhar p'ra ela, 
Mas não lhe sabe falar. 

Quem quer dizer o que sente 
Não sabe o que há de *dizer. 
Fala: parece que mente 
Cala: parece esquecer 

Ah, mas se ela adivinhasse, 
Se pudesse ouvir o olhar, 
E se um olhar lhe bastasse 
Pr'a saber que a estão a amar! 

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente 
Fica sem alma nem fala, 
Fica só, inteiramente! 

Mas se isto puder contar-lhe 
O que não lhe ouso contar, 
Já não terei que falar-lhe 
Porque lhe estou a falar...

Fernando Pessoa

O amor é sentimento lindo

O amor é sentimento lindo
Que briga sempre com a razão
Quando alguém está sentindo
O sente com emoção
Sem fórmulas, com o instinto
Ouvindo a voz do coração

Giano Guimarães


Prova de amor - Manoel Cordel

Prova de amor não é
Navegar os sete mares
Ir à lua ou às estrelas
Nem sair pelos ares
É, antes, ser teu amigo
Sempre estar contigo
Aonde quer que andares.

(Manoel Cordel)

Amor

Amemos! Quero de amor 
Viver no teu coração! 
Sofrer e amar essa dor 
Que desmaia de paixão! 
Na tu’alma, em teus encantos 
E na tua palidez 
E nos teus ardentes prantos 
Suspirar de languidez! 

Quero em teus lábio beber 
Os teus amores do céu, 
Quero em teu seio morrer 
No enlevo do seio teu! 
Quero viver d’esperança, 
Quero tremer e sentir! 
Na tua cheirosa trança 
Quero sonhar e dormir! 

Vem, anjo, minha donzela, 
Minha’alma, meu coração! 
Que noite, que noite bela! 
Como é doce a viração! 
E entre os suspiros do vento 
Da noite ao mole frescor, 
Quero viver um momento, 
Morrer contigo de amor!

Álvares de Azevedo


Sem Corpo Nenhum

Sem corpo nenhum,
como te hei de amar?
— Minha alma, minha alma,
tu mesma escolheste
esse doce mal!

Sem palavra alguma,
como o hei de saber?
— Minha alma, minha alma,
tu mesma desejas
o que não se vê!

Nenhuma esperança
me dás, nem te dou:
— Minha alma, minha alma,
eis toda a conquista
do mais longo amor!

Cecília Meireles


Ao Amor Antigo 

O amor antigo vive de si mesmo, 
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


Carlos Drummond de Andrade


Ajuda

Porque o amor é simples, 
Vale a pena colhê-lo. 
Nasce em qualquer degredo, 
Cria-se em qualquer chão. 
Anda, não tenhas medo! 
Não deixes sem amor o coração! 

Miguel Torga

Quanta loucura no amor

Quanta loucura no amor
Daquele que sabe amar
Ama tanto, que sente dor
E não sabe explicar

Desconhecido

Aprendamos, Amor

Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.

José Saramago


Amor!!...

Amor, meu anjo, é sagrada chama 
Que o peito inflama na voraz paixão, 
Amo-te muito eu t’o juro ainda 
Deidade linda que não tem senão! 

Virgem formosa, d’encantos bela, 
Gentil donzela, meu amor é teu. 
Vou consagrar-te mil afetos tantos 
Puros e santos qual também Romeu! 

Flor entre as flores, a mais linda, altiva 
Qual sensitiva, só tu és, ó sim. 
Esses teus olhos sedutores, belos 
De mil anelos, me pedirão a mim. 

Anjo, meu anjo, eu te adoro e amo. 
Por ti eu chamo nas horas de dor. 
Sem ti eu sofro; um sequer instante 
De ti perante só me dás valor. 

Meu peito em ânsias só por ti suspira 
Como da lira a vibrante voz! 
Te vendo eu rio e senão gemendo 
Vou padecendo saudade atroz! 

Amor ardente de meu coração 
Santa paixão em todo peito forte 
Eu hei de amar-te até mesmo a vida 

Deixar, querida, e abraçar a morte!

Cruz e Sousa 

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