A harmonia - Gonçalves Dias

A harmonia

I

Os cantos cantados
Na eterna cidade
A só potestade
Da terra e dos céus;
São ledos concertos
De infinda alegria;
Mas essa harmonia
Dos filhos de Deus
— Quem ouve? — Os arcanjos,
Que ao rei dos senhores
Entoam louvores,
Que vivem de amar.

II

E o giro perene
Dos astros, dos mundos
Dos eixos profundos
No eterno volver;
Do caos medonho
A triste harmonia,
Da noite sombria
No eterno jazer,
— Quem ouve? — Os arcanjos
Que os astros regulam,
Que as notas modulam
Do eterno girar.

III

E as aves trinando,
E as feras rugindo,
E os ventos zunindo
Da noite no horror;
Também são concertos
Mas esses rugidos
E tristes gemidos
E incerto rumor;
— Quem ouve? — O poeta
Que imita e suspira
Nas cordas da lira
Mais doce cantar.

IV

E as iras medonhas
Do mar alterado,
Ou manso e quebrado
Sem rumo a vagar,
Também são concertos;
Mas essa harmonia
De tanta poesia,
Quem sabe escutar!
— Quem sabe? — O poeta
Que os tristes gemidos
Concerta aos rugidos
Das vagas do mar.

V

E os meigos acentos
D′uma alma afinada
E a voz repassada
De interno chorar;
Também são concertos
Mas essa harmonia,
Que Deus nos envia
No alheio penar,

Quem sente? — Quem sofre,
Que a dor embriaga
Que triste se paga
De interno pesar.

VI

Se a meiga harmonia
Do céu vem à terra,
Um cântico encerra
De glória e de amor;
Mas quando remonta,
Dos homens, das aves,
Das brisas suaves,
Do mar em furor,
São tímidas queixas,
Que aflitas murmuram,
Que o trono procuram
Do seu criador.


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