Vida - Álvares de Azevedo

Vida

I
Oh! fala-me de ti! eu quero ouvir-te
Murmurar teu amor...
E nos teus lábios perfumar do peito
Minha pálida flor.

De tua carta nas queridas folhas
Eu sinto-me viver...
E as páginas do amor sobre meu peito

E, quando, à noite, delirante durmo,
Deito-as no peito meu...
Nos delíquios de amor, ó minha amante,
Eu sonho o seio teu...

A alma que as inspirou, que lhes deu vida
E o fogo da paixão...
E derramou as notas doloridas
Do virgem coração!

Eu quero-as no meu peito, como sonho
Teu seio de donzela,
Para sonhar contigo o céu mais puro
E a esperança mais bela!
 
II
A nós a vida em flor, a doce vida
Recendente de amor,
Cheia de sonhos, d'esperança e beijos
E pálido langor...

A tua alma infantil junto da minha
No fervor do desejo,
Nossos lábios ardentes descorando
Comprimidos num beijo...

E as noites belas de luar e a febre
Da vida juvenil...
E este amor que sonhei, que só me alenta
No teu colo infantil!

Vem comigo ao luar: amemos juntos
Neste vale tranqüilo...
De abertas flores e caídas folhas...
No perfumado asilo.

Aqui somente a rola da floresta
Das sestas ao calor
O tremer sentirá dos longos beijos...
E verá teu palor.

À noite encostarei a minha fronte
No virgem colo teu;
Terei por leito o vale dos amores,
Por tenda o azul do céu!

E terei tua imagem mais formosa
Nas vigílias do val:
— Será da vida meu suave aroma
Teu lírio virginal.
 
IV
Que importa que o anátema do mundo
Se eleve contra nós,
Se é bela a vida num amor imenso
Na solidão — a sós?

Se nós teremos o cair da tarde
E o frescor da manhã:
E tu és minha mãe e meus amores
E minh'alma de irmã?

Se teremos a sombra onde se esfolham
As flores do retiro...
E a vida além de ti — a vida inglória -
Não me vale um suspiro?

Bate a vida melhor dentro do peito
Do campo na tristeza
E o aroma vital, ali, do seio
Derrama a natureza...

E, aonde as flores no deserto dormem
Com mais viço e frescor,
Abre linda também a flor da vida
Da lua no palor.

Álvares de Azevedo

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