Literatura de Cordel - A triste partida do Rei do Baião


A triste partida do Rei  
            do Baião

Autor: Guaipuan Vieira

Cinco e quinze da manhã
Do dia dois de agosto
Do ano de oitenta e nove
Houve um terrível desgosto
De luto entrava o Nordeste
Com pranto triste no rosto.

As rádios anunciavam
Morreu o Rei do Baião
O mestre Luiz Gonzaga
O popular Gonzagão
Deixando muita saudade
Pra esta grande Nação.

No sertão também se ouvia
Acauã executar
Lento toque de silêncio
E outras aves a chorar
E mãe deusa da natura
Do seu trono a soluçar.
     
E concretizava o luto
Com sentimento profundo
Entre todas as gerações
Por este sofrido mundo
Em homenagem a Luiz
O primeiro sem segundo.

Luiz nasceu em Exu
Agreste pernambucano
Mil novecentos e doze
Foi este o sagrado ano
Que o destino lhe escolheu
Pra ele seguir bom plano.

Filho doutro sanfoneiro
Com nome de Januário
Desde então herdou seu dom
Uma causa sem inventário
Isto quando ainda garoto
Segundo seu comentário.

Desta forma seu Luiz
A seu pai acompanhando
Nos bailes, forrós e feiras
Seu baião foi ensinando
E fama na região
Já estava até ganhando.
         
Deixou a terra natal
Ao exército foi servir
Vindo então pra Fortaleza
Pra sua missão cumprir
O que muito lhe ajudou
E a bons planos fez seguir.

Devido as Revoluções...
Sempre era transferido
E nestas suas andanças
Morou num lugar querido
Minas Gerais de Tancredo
O homem nunca esquecido.

Foi então que conheceu
Um amigo e companheiro
Que já servira ao exército
Naquele rincão mineiro
Este fora Dominguinhos
Especial sanfoneiro.

Através desta amizade
Luiz voltou a estudar
Dominguinhos professor
E amigo particular
Que também lhe ensinou
A modinha popular.

Mas a vida de milícia
Igualmente a do vaqueiro
Sempre é solicitado
Segue outro paradeiro
Desta forma pra São Paulo
Seu Luiz seguiu ligeiro.

Na terra dos bandeirantes
Mudou sua opinião
Nova sanfona comprou
Que lhe deu inspiração
Assim Luiz começou
Aprimorar seu baião.

Sendo ainda militar
Foi pro Rio de Janeiro
De onde se desligou
Do exército brasileiro
E formou a parceria
Com o Xavier Pinheiro.

Xavier um português
Que vinha se apresentando
Na grande Rio de Janeiro
Lá no mangue executando
Valsas, tangos e até fados
Com Luiz auxiliando

Este estilo pra Luiz
Não era o seu verdadeiro
Pois queria apresentar
Seu próprio cancioneiro
A música regional
E nada do estrangeiro.

Com isto Luiz Gonzaga
Se encheu de esperança
Nos programas de calouros
Foi cantar com segurança
Apresentando seus Shows
Com muita garra e pujança.

Saindo dos auditórios
No Nordeste apareceu
A música de seu Luiz
Porque na sanfona leu
O sertão em poesia
Daí então se ergueu.

O primeiro nordestino
Num trabalho a se empenhar
Pra música regional
No Brasil vir espalhar
Provando assim a existência
Da arte mais popular.
              
Desta forma seu Luiz
Por ter rica criação
Lançou o xote e o forró
O xaxado e o baião
Ficando o arrasta-pé
Como símbolo do sertão.

Lançando estas criações
Fez o zabumba tocar
Dando ao mesmo mais valor
Na arte de forrozar
Também deu vida ao triângulo
Hoje instrumento exemplar.

Em pouco tempo o Brasil
Seu valor reconheceu
E grupo de seguidores
Ligeiramente nasceu
E Luiz Rei do Baião
Este título recebeu.

O seu valor cultural
Foi da maior importância
Pra história brasileira
Veja a significância
Pois decantou o Nordeste
Com jeito e com elegância.

Foi quem mais reivindicou
Melhoria pro Nordeste
Mostrando pros governantes
A seca, a fome e a peste
Que muito maltrata o povo
De todo sertão agreste.

No seu canto interpretou
O profundo sentimento
Da alma do sertanejo
Que sofre a todo o momento
No Nordeste que retrata
O mais cruel sofrimento.

Quando seu Luiz cantava
Simbolizava o vaqueiro
Seu aboio e seu gemido
Invadiam o tabuleiro
Desta forma ele exaltava
O Nordeste brasileiro.

Mas por força do destino
A um chamado atendeu
Vinda do Pai soberano
Quem chamou o filho seu
Para cantar lá no céu
As músicas que aprendeu.

Certamente o velho "Lua"
O mestre Rei do Baião
Já se encontra com seu pai
Lá em outra dimensão
Aquele que lhe ensinou
Tão honrosa profissão.

Este pequeno folheto
É somente uma mostragem
Daquele que foi em vida
Nosso maior personagem
Que o povo guardará
Para sempre a sua imagem.

Termino aqui esta história
Com o coração enlutado
Escrita no mesmo dia
Que Luiz ouviu chamado
Pra morar na Santa Casa
Por Deus sendo abençoado.


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