Florbela Espanca -Vulcões

Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal 
Não tem a lividez sinistra da montanha 
Quando a noite a inunda dum manto sem igual 
De neve branca e fria onde o luar se banha. 

No entanto que fogo, que lavas, a montanha 
Oculta no seu seio de lividez fatal! 
Tudo é quente lá dentro...e que paixão tamanha 
A fria neve envolve em seu vestido ideal! 

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões 
Como no gelo frio do cume da montanha 
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões... 

Assim quando eu te falo alegre, friamente, 
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha 
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!

Florbela Espanca

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