Deus, e o Homem - Gonçalves de Magalhães

Deus, e o Homem

Quando se arrouba o pensamento humano,
E todo no infinito se concentra,
De milhões de prodígios povoado;
Quando sobre o fastígio de alto monte,
Como um colibri sobre altivo robre,
Na vastidão sidérea a vista espraia;
E vê o sol, que no Oriente assoma,
Como num lago em própria luz nadando,
E a noite, que se abisma no Ocidente,
Arrastando seu manto tenebroso,
De pálidas estrelas semeado;
Quando dos gelos, que alcantis coroam,
Vê a enchente rolar em cataratas,
Por cem partes abrindo largo leito,
Fragas, e pinheirais desmoronando;
Quando vê as cidades enterradas
A seus pés na planície, e negros pontos
Aqui, e ali, moverem-se sem ordem,
Como abelhas em torno da colmeia;
O homem então se abate; um suor frio,
Que o suor que o moribundo côa,
Rega-lhe o corpo extático; sua alma,
Como um subtil vapor, que o lírio exala,
Ferido pelo raio matutino,
Da terra se levanta; e o corpo algente
Qual um combro de pó morto parece...
Ela está no infinito! — Então lhe troa
Uma voz, como o eco das cavernas,
Quando os ventos nos ares se debatem;
Como um ronco do Oceano repelido
Por estável penedo; como um grito
Das entranhas da terra, quando acesas
De sua profundez lavas borbotam;
Como o rouco bramido das tormentas;
É a voz do Universo! — voz terrível,
Porém harmoniosa, que proclama
A existência de um Ser, que de si mesmo,
De sua onisciência, e eterna força,
Tudo tirou, quanto o Universo encerra.

Os céus, os mundos, o Oceano, a terra
É um vasto hieroglífico, é a forma
Simbólica do Ser aos olhos do homem.
O movimento harmônico dos orbes
É o hino eterno e místico, que narra
Altamente de um Deus a onipotência.
Tudo revela Deus, — e Deus é tudo.

De tal grandeza sotoposto ao peso,
Como se o esmagasse ingente mole,
O homem se aniquila, e desparece,
Qual no profundo pego um grão de areia.

É aqui, oh meu Deus, calcando nuvens,
Parecendo tocar o céu co'a fronte,
Qu'eu reconheço a imensidade tua
Existe este Universo, existe o homem,
Porque de todo o Ser tu és a origem.

Aqui, para louvar teu santo Nome,
É fraco o peito humano, é fraca a língua,
É fraca a voz, que titubante hesita
Tão alto remontar, e no ar perder-se,
Antes que de astro em astro repetida,
De um céu a outro céu, de um Anjo a outro,
Vá retinir, Senhor, em teus ouvidos,
Como discorde som de rota lira.

Alva nuvem, que toucas este monte,
Desce um pouco, e recebe-me em teu dorso;
Asinha ala-me ao céu; na etérea plaga,
Vendo o sol de mais perto, talvez possa,
Com sua luz benéfica animado,
Altíssono entoar um hino excelso,
Digno de Jeová, que eterno escuta
Dos angélicos coros a harmonia.
Abre-te, oh céu azul, que a mortais olhos
A mansão do Senhor zeloso ocultas!
Abre-te, og céu azul; deixa minha alma
Saciar-se co'a luz da Sião santa.
Sobe, meu pensamento, voa, rompe
Os turbilhões dos Querubins, e Tronos,
Mais belos que mil sóis, mais coruscantes,
Que em vórtice perene estão ladeando
Do Eterno Padre o luminoso sólio.

Oh arrojado pensamento humano,
Por mais que em teu socorro os astros chames,
Por mais que sua luz o sol te empreste,
Seu ouro a terra, o céu a imensidade,
Os rios a corrente, os campos flores,
Suas asas o raio, os sons a lira,
E a noite seu mistério, alfim se tudo
Invocado por ti, a ti se unisse,
Não puderas ainda em teus transportes
Os louvores tecer do Onipotente!

Mas, oh Deus, que missão tens confiado
A este fraco ser, que sobre a terra
Entre os mais seres como um rei se ostenta,
E único para ti erguendo os olhos,
Parece teu rival? Missão augusta
É sem dúvida a sua; e o seu destino
Não é o d'alimária!... A Natureza
Obedece a seu mando, como se ele
Entre Deus, e a terra colocado,
Órgão fosse das leis da Providência.

Quem a ele se opõe? — Embalde o Oceano
Com cem braços separa os continentes.
O homem destrona os robres, e os pinheiros
Das fragas da montanha, ousado os lança
Sobre a cerviz do Oceano, enfreia os ventos,
E assoberbando as vagas furibundas,
Que ante seu gênio quebram-se gemendo,
Domina, e calca o túmido elemento,
E atravessa de um pólo a outro pólo,
Como atravessa os ares veloz águia.
Aqui bramando, um rio se devolve,
Qual serpente feroz medo incutindo;
Co'uma arcada de pedra o homem cobre-o;
Ele a derruba? — nova arcada o doma.

Como gigantes firmes, alinhados,
Para impedir-lhe a marcha, as frontes erguem
Enormes Alpes, açoutando as nuvens
Co'a coroa de gelo, e co'os penachos
De branca carambina, e verdes selvas;
Não retrograda o homem, não desmaia!
Quando sobre a cimeira o sol se encosta,
E a vista estende à profundez do vale,
O sol já no árduo afã vencendo o enxerga;
Quando transmonta o sol, o homem dá tréguas,
E descansa na já vencida estrada!
De dia em dia assim prossegue ovante;
Ora esbroa um cabeço mais supino,
E co'as ruínas desse outro nivela;
Ora sobe, ora desce, ora torneia,
Ora penetra a rigidez do monte,
Como a seta do Índio os ares rompe,
E a noite das abóbadas varando,
D'outro lado vai ver o céu, e o dia!
Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?

Tu convertes os bosques em cidades;
Marcas do sol o giro, e o dos cometas;
Do povo alado as regiões exploras;
Nem no mar a baleia está segura,
Nem nas espessas selvas o elefante!
Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?

Toda a terra está cheia com teu nome;
Um século transmite a outro século
Dos teus feitos a história portentosa;
Tu só marchas, tu só te desenvolves,
E inda não recuaste de fadiga!
Com que sinal selou a tua fronte
A mão do Criador? — Donde descendes?
Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?

Não, não és para mim mais um enigma!
Conheço a origem tua, e o teu destino
Tua missão conheço sobre a terra.
A Natureza toda te respeita
Porque és do Criador a obra-prima,
Porque transluz em ti o seu transunto.

Não é à força tua que se curva
A terra, que se à força se curvasse,
Seria o elefante o rei da terra.
É à tua sublime inteligência,
É a Deus, só a Deus, que tu refletes,
Como do sol a luz reflete a lua.

Nas barreiras da morte tudo esbarra,
Menos o homem, que atravessa airoso,
Aí o mortal corpo abandonando,
Para no seio entrar da Eternidade;
Assim o viajor o pó sacode,
E deixa o companheiro de viagem
Manto todo coberto de poeira,
Quando à cidade desejada chega.
A alma não morre, porque Deus não morre.

Assaz, oh Deus, o homem sobre a terra
Revela teu poder, tua grandeza.
A Razão, és tu mesmo; — a liberdade,
Com que prendaste o homem, não, não pode
Dominar a Razão, que te proclama!
Se muda para mim fosse a Natu,
Na Razão que me aclara, e não é minha,
Senhor, tua existência eu descobrira.

Eu te venero, oh Deus da Humanidade!
Meu amor o que tem para ofertar-te?
Digno de ti só tem minha alma um hino,
E esse hino, oh meu Senhor, é o teu Nome!

Que pode o homem dar a quem dá tudo?
Só em meu coração suspiros tenho,
Suspiros para todos os momentos.
De ti, Senhor, minha alma necessita,
Como de luz meus olhos, de ar meu peito.
E se me é dado a ti subir meus votos,
Se é dado pela mãe pedir um filho,
Voem meus votos sobre as ígneas asas
Do sol, e tu, Senhor, propício atende:
Nada por mim, por minha Pátria tudo;
Fados brilhantes ao Brasil concede.

Gonçalves de Magalhães



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