Machado de Assis - Paródia

Paródia

Se eu fora poeta de um estro abrasado
Quisera teu lindo semblante cantar;
Gemer eu quisera bem junto a teu lado,
Se eu fora uma onda serena do mar;

Se eu fora uma rosa de prado relvoso,
Quisera essa coma, meu anjo, adornar;
Se eu fora um anjinho de rosto formoso
Contigo quisera no espaço voar;

Se eu fora um astro no céu engastado
Meu brilho, quisera p’ra ti só brilhar;
Se eu fora um favônio de aromas pejado
Por sobre teu corpo me iria espraiar;

Se eu fora das selvas um’ave ligeira
Meus cantos quisera p’ra ti só trinar;
Se eu fora um eco de nota fagueira
Fizera teu canto no céu ressoar;

Mas eu não sou astro, poeta, ou anjinho,
Nem eco, favônio, nem onda do mar;
Nem rosa do prado, ou ave ligeira;
Sou triste que a vida consiste em te amar.

Machado de Assis


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