Amanhã - Machado de Assis



Amanhã quando a lâmpada da vida
Na minha fronte se apagar, tremendo,
       Ao sopro do tufão,
Oh! derrama uma lágrima sincera
Sobre o meu peito macilento e triste,
       E reza uma oração!

Será uma saudade verdadeira,
Uma flor que me arome a sepultura,
       Um raio sobre o gelo...
Ouvirei a canção das tuas dores,
E levarei saudades bem sombrias
       Deste meu pesadelo.

Lembrarei além-túmulo essas noites
Misteriosas festivais e belas
       Da estação dos amores!
Noites formosas, para amor criadas;
Que coroavam nosso amor tão puro
       De ventura e de flores!

Lembrarei nosso amor... E o teu pranto
Ardente como a luz de um sol do estio
       Irá banhar-me a campa
E as lágrimas leais que derramares,
O astro beijará — que pelas noites
       No oceano se estampa!

Um olhar, um olhar desses teus olhos!
Eu o peço, mulher! sobre o meu túmulo
       Um olhar de afeição!
Assim o sol — o ardente rei do espaço
Deixa um raio cair nas folhas secas
       Que matizam o chão!

Um olhar, uma lágrima, uma prece,
É quanto basta em única lembrança.
       Teresa, ao teu cantor.
Chora, reza, e contempla-me o sepulcro
E na outra vida de um viver mais puro
       Terás o mesmo amor,

Comente com o Facebook:

Nenhum comentário:

Postar um comentário